sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Acendo um cigarro e fumo, todo ele, na frente do espelho. E a medida em que recebo o estímulo do ato, meu corpo se movimenta como se fosse o último movimento involuntário a ser feito e percebido.
Ah, e vejo além de mim, além do espelho. E agora é minha alma que reflete naquele caos provocado pelo sentimento de encontro.
Fumo, fumo, e me enxergo, como ninguém mais vê. Recordo-me dos movimentos repentinos de outros seres. Todos antes mesmo de se olharem pelo vidro espelhado, já de antemão, refletem coisas. Todos, quaisquer, movimentos corporais dos que passam refletem alma, em corpo, e coisa.
O mundo é refletido nesse estar de instante no meu espelho, no meu reflexo, em meu cigarro que quase se esvai, assim como o vento que bate e volta em minhas costas nuas.
Estava em tudo, em todos, e absorta em minhas vísceras que pulsavam solicitando por mim.
Não era mais eu refletida no espelho... era tudo, eram todos, menos eu.
Toco em meu seio, nua. Passo a mão por entre os seios na tentativa de encostar-me à alma. Mas ela está refletida não ali, não mais. E sabe lá de onde se desdobra e levita o eu sem corpo meu.
É só o meu corpo sendo usado, pelas almas do mundo.
Dói-me ser alma dos outros, dói-me ser corpo só, e sozinho.
Dói-me o refletir, o reflexionar, o reflexo.

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